Todos os anos, especialmente na Páscoa, gosto de dar dicas de decoração para o dia especial, receitas, mas além disso, algumas informações importantes e culturais sobre o assunto, que no caso é o Bacalhau. Achei esta matéria da revista Prazeres da Mesa superinteressante. Confiram:

Não é de hoje que o bacalhau povoa saborosamente as mesas da boa gastronomia. Sua fama vem de muitos anos, mais precisamente de cinco séculos atrás, quando a iguaria ajudou a salvar vidas. Foi durante a época das grandes navegações que os portugueses (tinham que ser eles, claro) introduziram o peixe em sua alimentação. Durante os infindáveis dias no mar, o mais prudente era se alimentar com um produto rico em proteínas e minerais, e que agüentasse as intempéries da viagem. O bacalhau era armazenado seco e salgado – o que o torna não-perecível. O melhor de tudo é que o bacalhau salgado não apenas suportava as longas jornadas em alto-mar, mas também guardava suas características de sabor, ao contrário dos demais pescados. Há quem diga que é até mais gostoso. “Na minha apreciação pessoal, o tipo salgado de cura amarela (ou seja, secado ao sol) é realmente divido”, diz o chef português Vítor Sobral, do restaurante Terreiro do Paço, de Lisboa. “O fresco é sem dúvida saboroso, mas ainda assim prefiro o salgado.” Prato cheio para os desbravadores portugueses, que faziam viagens de até cinco meses e sofriam com problemas graves para encontrar alimentos próprios para abastecer as embarcações.
A idéia de incluir o peixe nas receitas, no entanto, não é lusitana. Há registros que atestam a existência de fábricas de processamento de bacalhau na Islândia e na Noruega já no século 9. Quando conheceram a região do Ártico, onde os vikings já haviam descoberto a espécie, os portugueses tomaram para si a bela idéia de saborear o peixe enquanto desbravavam o mundo. A diferença para o modo como os portugueses consumiam o peixe é que os vikings ainda não haviam descoberto o sal, e apenas o secavam ao relento. No momento em que o bacalhau estivesse pesando cinco vezes menos e endurecesse, estaria pronto para ser consumido nas demoradas viagens pelos oceanos.
Ganhando o mundo
A pesca e o uso do peixe seguiram dessa forma prosaica e “bairrista” por muitos séculos, resignando-se apenas ao norte da Europa e aos portugueses. Mas, ao final do século 19, a pesca se espalhou. Dos anos 1930 aos 1960, a captura do bacalhau passou a ser feita também nas proximidades da Groenlândia – que ainda hoje fornece mais de 80% do produto consumido pelos portugueses. Nessa época, Portugal tinha apenas cerca de 50 navios responsáveis pelo trabalho, mas a frota já estava antiquada, com alguns navios de madeira e sem tecnologia apropriada. Nos anos 1970, as águas territoriais do Canadá foram alargadas e estabeleceu-se cotas máximas de pesca para frotas estrangeiras. Com isso, hoje apenas um número pequeno de navios portugueses se dedica as aventuras marítimas em busca da iguaria, hoje em sua maioria importada. Os países escandinavos são os que mais seguem com esse tipo de atividade, assim como barcos no norte do Canadá e do Alasca. O legítimo bacalhau do Porto (Gadus Morhua) já não é tão abundante quanto antes. Prato eclético, o bacalhau foi abraçado pelos noruegueses, espanhóis, italianos e, claro, pelos brasileiros. Por aqui, sua popularização se deve, em grande parte, à Igreja Católica e às proibições de se comer carne em alguns períodos do ano, como a Páscoa. Religiosidade à parte, esse é o melhor período do ano para se aventurar nesse sabor milenar, recheado de história e hoje disponível em receitas das mais variadas, desde as simples até as mais elaboradas. Selecionamos dez, apresentadas a seguir – todas tão marcantes que não deixam dúvidas que o bacalhau ainda é o rei dos mares.
Sem mistérios
Acertar no bacalhau tem lá seus segredos. A seguir, alguns pontos importantes para não errar no cardápio de Páscoa
Tipos de peixe
Existem tipos diversos de bacalhau: porto ou cod (Gadus morhua) , zarbo, ling e saithe são algumas delas. Este último é um dos mais populares no Brasil, devido ao preço mais em conta. Por aqui também é muito comum vender um peixe chamado mero, salgado, como se fosse o legítimo bacalhau. O porto, chamado também de bacalhau imperial, tem a carne mais branca e postas mais altas, que se desfiam em lascas ao serem cozidas, assadas ou grelhadas. Os demais, possuem tamanhos menores e a carne um pouco mais escura, de sabor acentuado.
A compra
Para reconhecer o produto verdadeiro basta observar alguns pontos. O verdadeiro bacalhau tem a cauda ligeiramente arqueada e quadrada na ponta. Sua espessura na região do lombo é grossa. A lateral da peça possui pequenas barbatanas. A parte superior é mais larga, e vai afinando em direção ao rabo. E mais uma dica quanto à conservação. “Nunca compre se estiver muito úmido com pintas vermelhas, que são um perigo, um sinal de que já entrou no processo de deterioração”, diz Wilson Barquilla, diretor-comercial de importados do Pão de Açúcar.
O preparo
O bacalhau deve ser cortado em pedaços (se for comprada a peça inteira), lavado e colocado de molho em água filtrada, por no mínimo 24 horas (ou até dois dias, para lombos mais grossos). Essa água deve ser trocada no mínimo quatro vezes nesse período – e o segredo é deixá-lo sempre de molho na geladeira para que conserve suas qualidades e exale odor forte. A chef portuguesa Julia Vinagre, que comanda O Bolota Castanha, em Terrugem, recomenda que as postas altas (lombo) fiquem de molho por três dias, trocando a água duas vezes. O segredo, segundo a expert, é deixar o bacalhau no ponto certo é guardar um pouco da água do molho toda vez que for trocar a água. Na hora de hidratar novamente o peixe, acrescentar um pouco da água do molho reservada à nova água. Assim, o bacalhau fica sem sal, mas mantém seu sabor.
Ao cozinhar
Quando a receita pede bacalhau cozido, coloque as postas ou pedaços em água fervente e deixe cozinhar por quatro a oito minutos, dependendo do tamanho do peixe. Uma ótima dica é prestar atenção quando aparecem as lascas. Se for o bacalhau do Porto, ele já está pronto. Mas nem todo prato pede bacalhau cozido. Em várias delas, o bacalhau é usado apenas demolhado mesmo, sem ferver
Aproveitamento
As partes menores do bacalhau, as lascas, podem ser desfiadas e usadas para fazer bolinhos ou pataniscas.
Congelamento
É possível congelar as peças já demolhadas de bacalhau para usar em uma próxima ocasião. Escorra bem e seque o peixe em papel-toalha. Coloque em sacos plásticos próprios para alimentos e leve ao freezer por até três meses. Retire do freezer e deixe descongelar na geladeira, de um dia para o outro
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